O final de semana foi intenso! 24 de março é o dia de recordar (para que a história não se repita) do Golpe Militar Argentino que deixou 30 mil pessoas desaparecidas. É feriado nacional e pude perceber que há uma forte campanha do Estado argentino pela Memória e celebração da Democracia, com festivais de cinema pelas cidades e peças publicitárias.
No sábado participei do Festival Cultural por la Memoria, organizado por um grupo de esquerda chamado La Brecha. Diversos artistas se apresentaram e pude conhecer a produção cultural local. O que mais me encantou: um grupo musical de mulheres incrível chamado "La gran Puta", um artista visual chamado Champs Sauro (facebook com o mesmo nome) e o ritmo folclórico chamado Chacarera, a dança é lindíssima e tem uma energia parecida com a Ciranda nordestina, é uma dança de encontros, de troca.
Me emocionei muito no festival. Fotografias sobre a ditadura e sobre as lutas atuais da juventude argentina estavam espalhadas por todas as paredes do Galpón de Telosa, espaço autogestionado onde funciona uma escola popular para crianças e onde artistas circenses ensaiam. Vídeos foram exibidos, poesias foram declamadas. Chorei com a declaração de um pai que falava de seu filho e nora e de seu neto que nasceu em um campo de concentração e nunca viu seus pais. Chorei porque neste mesmo sábado, no Brasil, famílias marchavam pedindo um novo golpe militar. Um golpe que deixou não sei quantos mortos, torturados e desaparecidos no Brasil. Com urgência, precisamos festejar a memória.
No sábado estava muito frio. Meu lugar preferido foi uma fogueira, montada para assar hambúrgueres e salsichões. Lá conheci advogados populares e lembrei dos meus amigos brasileiros que são educadores populares em direito e cidadania. Conheci pessoalmente alunos da minha faculdade que tinha contato via Facebook.
Conheci também várias organizações de esquerda, de trabalho de base em universidades e bairros. Comprei livros, caderneta, jornais. Ajudei financeiramente o projeto de educação popular que funciona no galpão, pois alguns meses atrás o mesmo foi incendiado de forma suspeita. O dinheiro arrecadado no evento tem como fim a reconstrução do espaço e das atividades.
No domingo participei da Marcha por la Memoria, Verdad e Justicia. Levei comigo a organização estudantil que faço parte no Brasil, a Executiva Nacional de Estudantes de Comunicação (Enecos). Revi os rostinhos que estavam no Festival e conheci muitas outras organizações políticas daqui. Algumas me chamaram mais atenção: a Juventude Guevarista, a UJS (tem em todo canto essa sigla? kk), o Partido Obrero, a tradução seria Partido dos Trabalhadores (isso mesmo), o MST, mas não é o Movimento do Trabalhadores Sem Terra, e La Brecha, organização dos meus novos amigos.
Me surpreendi por não ver policiais, nem jornalistas.
Me surpreendi por não ver policiais, nem jornalistas.
Todas as organizações tinham sua batucada e muita animação. A cidade foi toda enfeitada com fotos das vítimas da ditadura, com faixas, cartazes, estêncis e pichações.
Nesse fim de semana, me senti em casa. Me senti mais do que nunca latino-americana.
Temos uma história comum, temos um presente similar, temos um futuro a lutar.
"Lxs compañerxs detenidxs desaparecidxs, PRESENTES!
Ahora y SIEMPRE!
No olvidamos, no perdonamos y no nos reconciliamos."
Programação do festival

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